Grampos x chapeletas Jean
Pierre von der Weid
Muito se tem
falado dos grampos fixos, termo usado antigamente para diferenciá-los dos grampos
de fenda, conhecidos há tempos como ‘pitons’ e dos grampos de expansão,
invenção dos anos 60 que impulsionou enormemente a qualidade técnica das nossas
conquistas. Acredito que devemos ao CERJ, e provavelmente ao Pellegrini, a
difusão desta preciosidade entre nós. Os grampos de expansão eram de ¼ e tinham
uma chapeleta presa por um porca. Eram usados como meio de progressão ou para
instalar uma proteção rápida e provisória que asseguraria a árdua tarefa de se
bater um grampo de ½ numa posição precária. Muito mais tarde apareceram as
chapeletas de ½, os ‘parabolts’, grampos fixos com colas e cimentos e outros
tecnicismos, originários dos países europeus ou americanos do norte. O grampo
fixo passou a ser chamado por muitos de grampo ‘P’ em alusão a seu formato,
sobretudo pelos adeptos das chapeletas.
O Rio de Janeiro,
pioneiro da escalada no Brasil, desenvolveu enormemente o esporte baseado na
técnica de conquista com os grampos de expansão, usados onde não entravam as
cunhas e pitons, e com os fixos. Naquele tempo, conquistar era uma atividade
que ganhava este verbo somente se feita “de baixo para cima”, sem auxílio algum
vindo do cume. O uso de colas e cimentos é impossível neste caso, não dá para
esperar secar ou curar o cimento ou resina. Na busca de novas possibilidades, a
criatividade foi exercida ao máximo e diferentes formas e materiais foram
experimentados. O grampo de 3/8 veio para
facilitar o árduo trabalho de abrir a marretadas o buraco do grampo, tornando
as conquistas mais rápidas. O seu sucesso
na via Leste do Pico Maior de
Friburgo é indiscutível.
O problema do
grampo ainda é a sua fabricação não padronizada. Qualquer um que queira
realizar uma conquista pode comprar um vergalhão de ½ e passar no serralheiro
da esquina para mandar fabricar os grampos que usará. Nenhum padrão, nenhum
controle de qualidade, nada restringe este gesto. O conquistador deixará sua
via com grampos que poderão enferrujar ou não, mal ou bem soldados, de aço
adequado ou não. Anos depois, outro escalador sentir-se-á no direito de ir lá e
bater o grampo da sua escolha, sem nem perguntar ao conquistador suas
preferências. A situação está assim sem padrão, até porque tudo mudou ao longo
de quase cem anos de uso dos grampos, e pouca ou nenhuma atenção ao direito
autoral. Considerando isto, e também porque tive conquistas minhas grampeadas
ou regrampeadas à revelia, é que resolvi externar minha opinião sobre os
grampos e chapeletas, materiais e etc e propor a fabricação de um novo tipo de
grampo fixo que contorna os principais problemas dos atuais.
Grampos x
chapeletas
Tenho lido muitos
textos depreciando o grampo fixo e cantando loas às chapeletas. A grande
diferença entre os dois é que as chapeletas trazem a marca do fabricante, em
geral estrangeiro, reconhecido e aceito sem hesitação pelo escalador. Enquanto
isso, os nossos grampos fixos foram ou são fabricados numa serralheria
desconhecida por encomenda, eventualmente urgente, de algum conquistador antes
de partir para sua conquista. Nem sempre este é o caso. Durante anos Pellegrini
fabricou grampos para as conquistas do CERJ. Hoje em dia alguns fabricantes
chegaram a ganhar nome na praça e manter um padrão, como é o caso do Chiquinho
que há anos fabrica grampos de ½ em Petrópolis. Grampos da ‘marca’ Santa Cruz
invadiram às dezenas muitas das escaladas no Rio e vizinhanças, batidos à
revelia dos conquistadores na maioria dos casos. Tão difundidas são estas ‘marcas’ que Marcelo Roberto e Miguel Freitas, ambos do CEC, fizeram
testes na PUC-Rio procurando quantificar sua resistência à tração. Verificaram
que estes grampos resistiam a trações estáticas até pouco mais que 1.000 kg,
deformando-se em seguida, quando o teste era então interrompido. Os resultados
destes testes, que acompanhei pessoalmente, estão publicados na internet na
página do CEC. Entre os testes não publicados está o que fiz com um grampo de
¼, marca Stubai, que se pode encontrar em muitas conquistas aqui no Rio. Preso
com o olhal para baixo o grampo resistiu até 3.500 kg.
O que diferencia
os grampos e as chapeletas a ponto de provocar tão acaloradas discussões? Além
do problema da marca, os grampos trazem o inconveniente de terem uma forma que
os expõe à deformação sob esforço, o que não acontece com as chapeletas. O
grampo se fixa usualmente com o olhal para cima, de modo que o esforço se
exerça no corpo do grampo e não no olhal soldado nele. Com isto, o torque
exercido pela força de queda acaba deformando o grampo e fica muito difícil
calcular se ele irá se partir ou não, o único resultado que interessa ao escalador.
Raramente se fixou um grampo com o olhal para baixo, posição que permite que o
olhal se apoie na parede impedindo a deformação. Se a solda for perfeita, o
grampo resiste a quase 5.000 kg, mostraram os testes na PUC-Rio. Mas todos
olhamos a solda como um ponto fraco e temos medo que ela ceda ao impacto. Eu
mesmo passo uma fita no eixo quando encontro um grampo de olhal para baixo, não
sei a qualificação do soldador que o fez. Estarei eu argumentado em favor das
chapeletas? Decerto não, apenas conheço as limitações do grampo e não devo
escondê-las numa discussão séria.
As chapeletas
levam a vantagem da marca e dos cálculos teóricos, todos simples e conclusivos
nas condições ideais. A força se exerce transversalmente ao eixo do parafuso de
fixação e à chapa de aço usada na chapeleta, situação encontrada em todos os
manuais. A desvantagem? Nem preciso falar da possibilidade de rapel,
inexistente nas chapeletas a menos que se abandone uma fita. A forma complexa,
com mais de um elemento (o parafuso de fixação e a chapeleta) e o fato de que é
impossível conferir o estado de corrosão do eixo ou da rosca responsável pela
fixação da chapeleta são desvantagens gritantes. Mais ainda, numa queda a
chapeleta pode girar no seu eixo e exercer uma alavanca sobre a rosca, como um
pé-de-cabra, amplificando muitas vezes o esforço da queda. Por último, quem já
teve o trabalho de retirar grampos e chapeletas indevidamente batidos em
conquistas alheias sabe muito bem que o pino das chapeletas parte-se com uma
facilidade espantosa, ao contrário dos grampos.
Inox ou aço
carbono?
O problema da
maresia e corrosão é crucial no Rio de Janeiro, cidade dos paredões à
beira-mar. O material usado nos grampos sempre variou de forma não controlada.
Vemos grampos de ½ em aço carbono resistirem durante anos e anos, expostos
diretamente à maresia do Pão de Açúcar, enquanto que outros se desfolharam em
horrorosas camadas de ferrugem, reduzindo sua espessura útil a assustadores ¼
ou menos. Proteções diversas, tintas, zarcões, pixe, galvanizações e outros
artifícios foram tentados mas nunca foi conclusiva a eficiência de qualquer
destes métodos. Foi então que apareceu o aço inox como material ideal para
grampos fixos. Com eles foi feita a regrampeação da chaminé Gallotti solução “milagrosa” para a
maresia inclemente.
A grande vantagem
do inox é, realmente, o fato de ser ele praticamente imune à maresia. Ao
contrário do aço carbono, o inox tem sempre o mesmo aspecto mesmo depois de
anos de colocado na pedra. Solução definitiva para a corrosão? Não! Outros
problemas tornaram-se evidentes, problemas estes não suspeitados no início e
que vieram a ser conhecidos com o desenvolvimento da tecnologia de prevenção à
corrosão nas plataformas e equipamentos de exploração de petróleo no mar. O aço
inox é, em primeiro lugar, um aço difícil de soldar sem degradar o material.
Microtrincas aparecem e progridem pelo material sem serem percebidas a olho nu.
O aço aparentemente perfeito um dia parte-se como um bastão de giz. Exemplos
deste fenômeno foram reportados nos grampos da Gallotti. Outro problema é a textura do inox, muito lisa. O grampo
de inox gira no buraco com muita facilidade, mesmo com palhetas para aumentar a
pressão. O aço inox é uma roleta russa. Nunca sabemos se o grampo está bom ou
se tem microtrincas e, mesmo depois de anos de fixado, ele gira no buraco com
grande facilidade. Entre um grampo de inox e um de aço carbono, não há o que
hesitar, fico com este último mesmo sabendo que ele será corroído. Ao menos
saberei quando é a hora de trocar. O inox quebra sem avisar.
Um grampo
diferente
Estas
considerações apontam todas para a fabricação mais cuidadosa e padronizada dos
grampos, contornando assim suas principais desvantagens. A eliminação da solda
é o primeiro passo. Para isto a escolha do processo de fabricação deve passar
pela forja, processo muito mais preciso, controlado, reprodutível e que
dispensa as perigosas soldas. A escolha do material também deve ser cuidadosa,
optando por um aço dútil o bastante para não ser quebradiço, mas que aceite
receber as marretadas necessárias para sua colocação. Finalmente, ainda na
escolha do material coloca-se a sua resistência à corrosão, descartando-se o
inox, mas guardando algum cromo na sua composição ou incluindo um processo de
galvanização eficiente para protegê-lo. Na página do CEC reproduzo o desenho
que proponho para o grampo forjado de 12 mm (em vez de ½) a ser colocado com o
olhal para baixo, evidentemente. Muito parecido com os grampos Stubai de ¼ ou com
os velhos 3/8 do Pellegrini. Incluí uma
corda de 11 mm e um mosquetão base no desenho, para dar uma escala e verificar
o conforto do seu uso. O preço de custo do grampo não será muito maior que o
preço dos grampos atualmente comercializados, o problema maior é a quantidade
necessária para custear o preço da forma. Um ‘pool’ de clubes, escaladores e
federações poderia viabilizar a sua fabricação e dar ao esporte uma alternativa
nova e segura.
Jean Pierre